Sigo palavras e busco estrelas.

EsSa ReDe InViSíVeL dE aMoR

Por Ana Jácomo

“…cada vida toca mesmo muitas outras vidas. Direta ou indiretamente. No nosso cotidiano, tantas vezes árido, agitado, apertado, a gente não percebe. Não registra. Não lembra disso. Mas se pudermos parar um pouquinho, e afastar o sentimento dessa roda-viva, é possível notar o quanto a nossa vida está ligada a outras tantas numa rede invisível, tecida com fios de puro sentimento. O quanto o fato de existirmos influencia, de diferentes jeitos e em variadas circunstâncias, outras tantas vidas, conhecidas e anônimas. Gente que já passou por nós e nem sabemos mais por onde anda. Gente que continua próxima dos nossos olhos. Gente que continua próxima apenas do nosso amor. Gente cuja vida esbarra na nossa de forma muito rápida, mas nem por isso menos valiosa. Pessoas que, às vezes, sequer sabemos quem são.

Não estamos separados, como tantas vezes sentimos. É fantástico ter olhos para ver a amorosa rede de conexões que cada vida representa. Quando tratamos uma pessoa com gentileza, respeito, cuidado, não é somente ela que está sendo tocada, mas toda a infinidade de inter-relações envolvidas na sua passagem pelo mundo, as que já existem e as que poderão vir a existir. Tocamos, em desdobramento, outras tantas histórias e possibilidades vinculadas àquela vida, única e intransferível. Cada pessoa é muita gente, além da preciosidade de ser simplesmente quem é.

Ao olhar para mim, sinto a presença de incontáveis vidas. Sem elas, não teria chegado até aqui da mesma forma. Gente da minha família de sangue. Gente da família que o meu coração cria, jornada afora. Gente que encontrei em algum ponto do caminho e nunca mais revi. Muitas me ajudaram sem sequer perceber, sem que eu tivesse tempo ou oportunidade para expressar o quanto. Recebi, em diferentes momentos, a dádiva de gestos de cuidado e amor que fizeram toda diferença. Sorrisos, olhares, escutas, abraços, palavras, silêncios compartilhados, muitas e muitas vezes foram nitidamente providenciais. Luciano de Crescenzo, escritor italiano, disse uma coisa linda: “Somos todos anjos com uma só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. E não é?

Essa leitura da interdependência, que é também tão poética, nos convida a refletir sobre a responsabilidade das nossas ações em todo e qualquer encontro, mesmo desencontro depois. O filósofo Emerson, num texto que lhe é atribuído, diz que tivemos sucesso na nossa jornada quando ao menos uma vida respirou mais fácil porque nós vivemos. Essa perspectiva de contribuir para que outras vidas respirem melhor porque existimos nos faz redimensionar a importância da nossa estada por aqui. A natureza é um sistema vivo todo amoroso. Como parte dela, por essência, não somos diferentes. Precisamos aprender a respirar melhor e a ajudar, cada um do seu jeito, que outras vidas também respirem com mais facilidade. Não precisa ser por meio de feitos espetaculares. Pode ser nas miudezas do dia-a-dia, no improviso criado por cada instante. Isso já é grande à beça.”

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